Publicado em: 28/09/2026
Quando as luzes se acendem sobre o mar de Arraial do Cabo, começa uma pesca que atravessa cerca de dois séculos de história. A captura de lulas, além de fazer parte da tradição pesqueira do município, representa uma importante fonte de renda para trabalhadores e movimenta restaurantes e quiosques da região. Mas os relatos de pescadores mais antigos apontam para uma transformação. Hoje, seria necessário um esforço maior para capturar uma quantidade menor desses animais.
É nesse cenário que o pesquisador Renato Dantas, doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina, desenvolveu com o Projeto Cephalopoda e apoio do Projeto Costão Rochoso um estudo sobre a pesca de lulas, buscando preencher uma lacuna de conhecimento científico sobre esses cefalópodes e a atividade pesqueira na região.
Durante dois anos, o pesquisador realizou monitoramento mensal e agora analisa dados sobre reprodução, tamanho e dinâmica das espécies. A pesquisa também considera a relação das lulas com a ressurgência, fenômeno que leva águas frias e ricas em nutrientes à superfície e influencia a atividade pesqueira.
“Antigamente tinha muito. Eles diziam que eles acendiam as luzes e a água era branca, de tanta lula que tinha.” disse Renato Dantas.
A diferença, segundo os relatos compartilhados na entrevista, não estaria necessariamente no tamanho dos animais, mas na quantidade capturada. A lembrança de uma água tomada por lulas contrasta com a percepção de um esforço maior para obter uma quantidade menor de pescado atualmente.
Essa memória integra a dimensão socioeconômica e cultural do estudo. Além da investigação biológica, Renato Dantas ouve pescadores para compreender a trajetória da atividade, as transformações nas práticas de pesca, os anos de experiência e a renda gerada por esse trabalho.
Quando as luzes se acendem, a ciência também entra em cena. Ao reunir dados biológicos e informações sobre a experiência dos pescadores, o estudo busca compreender os fatores que influenciam essa atividade tradicional e ampliar o conhecimento sobre as transformações ambientais que acontecem no mar de Arraial do Cabo.